“Meu velório era festa”

“Meu velório era festa”

Foi muito engraçado
Meu velório era repleto
Estava eu lá espichado
Quando vi o Anacleto

Anacleto eu conheci
Lá no orfanato
Foi estranho quando o vi
Só tinha o seu retrato

Uma moça tão bonita
Tinha sido meu sofrer
Agora que morri
Não adiantava mais me ver

Eu tentei falar com ela
Para ver se me beijava
Pois na escola era tão bela
Todo mundo a cortejava

O Japonês da melancia
Um arrepio era feroz
Eu roubava com alegria
Sua roça de albatroz

Quantas vezes eu corria
Com os meninos peraltas
No riacho me escondia
No topo das árvores altas

Ele era muito bravo
Pois um dia ficou mal
De traz do pé de cravo
Dava seis tiros de sal

Meu Deus que alegria
Dona Iolanda professora
Quantas vezes eu corria
Para fugir da vassoura

Eu ri que me acabava
Fugia pela janela
Jabuticaba pera e uva
Milho verde na panela

Sua chácara era segura
Cheia de pés de frutas
Mal sabia dessa loucura
Seu riacho tinha trutas

Seu Francisco e Francisca
Que saudades do casal
Pois do risca e rabisca
Transformou-me em ser normal

Dona Francisca fazia pão
Eu ajudava a cilindrar
De noite pelo chão
Em silêncio ia provar

Certa manhã eu acordei
Tinha dormido na despensa
Qual surpresa eu encontrei
Uma surra por recompensa

Meus amigos da pelada
Juntos no campo de terra
Era raça era graça
Mas também era guerra

A bola de capotão
De tão dura e costurada
Não perdoava um dedão
Uma unha era arrancada

Eu vi o Pelezinho
Um estilingue no pescoço
Vi também o Zezinho
O embornal de caroço

Para nambus e rolinhas
As balas eram de gudes
As caças deliciosas
Agora não eram rudes

Silêncio no salão
Tio Rodrigues adentrou
Um gigante coração
Mil crianças ensinou

Maranhense de nascença
Pastor por vocação
O fruto de sua crença
Salvar vidas era missão

Acordei de supetão
Quanta gente reconheci
Quando for pro meu caixão
Irei feliz não te esqueci

Autor: Wilson Rodrigues Silva

(Wilson Sylvah)

http://www.wilsonsylvah.com.br

Daniel
novembro 3rd, 2016 at 2:32 pm

Cara, pude relembrar de um montão de coisas lendo a sua crônica, que saudades daquele tempo em que nas peladas do “Lar” travávamos verdadeiras batalhas… abs

dezembro 6th, 2016 at 2:39 pm

Valeu meu amigo Daniel! Saudades daquele tempo mágico, um mundo a parte no qual pudemos desfrutar e crescermos como cidadãos de bem!!! Show

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